domingo, 16 de agosto de 2009
"... nesse dia."
Acordou com dor de cabeça. Partilhava o estado de espirito do mundo. Chuvoso e frio. Abriu o estore e correu a cortina na ânsia de que um pouco da luz do dia o fizesse despertar daquele estado de banalidade a que se tinha votado. As árvores eram tocadas pelos primeiros ventos outonais e o castanho era o tom predominante numa mistura de cinzentos. Ficou sentado na cama a observar o que estava na sua frente. Em frente à janela. Apoiou os cotovelos nos joelhos e e enfiou a cabeça nas mãos. Por longos minutos pensou o que fazer. Demorou-se. Era um Domingo. Um Domingo como outro qualquer. A chuva fazia-se notar e lavava a janela do seu quarto bem como o resto da cidade. Um carro por outro apenas circulava nas ruas ja alagadas de agua. Levantou-se novamente e circulou pelo quarto na procurar exasperada por um sinal do que fazer. Deteve-se em frente ao espelho onde fotos de Verões passados ainda permaneciam coladas. Fotos de noites, fotos de fins de tarde, fotos de viagens. Fotos de tempos antigos. Fotos de pessoas e de tempos que não voltam mais. A chuva na janela aumentou de intensidade. Virou-se para o armario e escancarou as portas. Pensou o que devia vestir naquele dia. Agarrou numa das primeiras peças que lhe vieram à mão. Umas quaisquer calças de ganga e uma banal camisola preta. Saiu do quarto e deslocou-se para a entrada onde pegou num sobretudo preto e um cachecol. Partiu para a rua. Enquanto descia um sem fim de lances de escada. Ia-se interrogando a onde iria e o que iria ver, o que o tinha feito vestir-se naquelas horas matinais de domingo. Com a respiração um pouco mais acelerada devido a ter descido as escadas, fica na entrada do prédio onde morava, uma vez mais interrogando-se e observando a chuva que caia do lado de fora lavando vidros, passeios e carros. Nisto, respirando fundo como a ganhar coragem parte para a rua. O cinzento mantinha-se, o frio fazia sentir e a chuva insistia em cair, qualquer pessoa teria decerto rumado do quarto para a sala em frente a uma lareira ignorando o resto do mundo. Saiu para a rua e rapidamente sentiu as gotas de chuva tocarem-lhe a cabeça e aos poucos tambem o resto do corpo. A cidade estava praticamente deserta como ja tinha visto da sua janela para o mundo. Circulava do lado direito da rua por entre toldos e lojas fechadas. Só ele. Mais ninguém. Escutava o vento zumbir nas esquinas e as força das gotas nas poças e nas vitrines. Depressa o sobretudo se tornou uma ineficaz protecçao contra a chuva. Não queria voltar para casa. Continuo por ruas e avenidas sem pensar a onde o levariam.Sentia-se confuso. Sentia-se só. Horas antes miseravelmente só. Cada passada real correspondia a uma outro pensamento confuso. O vento fez-se sentir cada vez mais forte. Se houvesse alguem que o visse por certo diria que era maluco e que devia estar em casa e que muito provavelmente se ira constipar. A agua tudo leva. A chuva continuava no seu rosto. Sentia o mau humor matinal desvanecer-se nas gotas de chuva que lhe percorriam o casaco. Sentia a cabeça ficar mais leve. Aos poucos no seu rosto começou a notar-se uma ponta de sorriso.Na sua mente já não havia mais a confusão causada por eventos de dias anteriores e os retratos do espelho que o tinham tocado minutos antes, não passavam mesmo disso. Deteve-se numa praça ampla. E muito lentamente virou a cabeça para cima. Sorrindo e chorando a agua lavou-lhe o rosto. Estava encharcado. Agora sim sentiu-se bem. Sentiu-se como no fim de um banho de agua quente após um dia de trabalho. A chuva tivera o efeito catalisador nele. Estava longe de casa mas nao se importou. Agora sim tudo fazia sentido.Ainda que não soubesse bem como o resolver. Sentiu-se seguro e confiante. Olhou em redor e viu um café. Encaminhou-se para lá. Sentou-se numa mesa junto à janela. Entre os poucos clientes habituais ele foi olhando com indiferença. Não o incomodou. O empregado, um sujeito alto e fardado prontamente lhe perguntou o que se desejaria. " um café e uma torrada por favor" pediu enquanto tirava o casaco e o colocava na cadeira em frente à sua. Acomodou-se o melhor que pode na sua situação. O café era acolhedor. Decorado com velhas taças, cachecois e fotografias antigas. Rostos já marcados na historia. Pintado em tons vermelhos e castanho. Havia mais pessoas sozinhas nas mesas como tal a indiferença que lhe foi conferida aquando da entrada mantinha-se até então. Nada fez por mudar isso. Após uns minutos trouxeram-lhe o que tinha pedido. Agradeceu com um sorriso. Tomou o seu pequeno almoço enquanto se sentia hipnotizado pela chuva que caia la fora. Tomou o seu lanche demoradamente. Levantou-se para pagar. Quando abre a carteira uma fotografia cai no chão, depressa se baixou para a apanhar. Reconhecia aquele rosto. Reconhecia aquelas feições. A mundaça tinha sido demasiado recente para poder ter tirado todos os simbolos. Levantou-se lentamente e recolheu o troco. Saiu porta fora uma vez mais para o mundo. A chuva caiu o tempo todo. O vento soprava forte nas esquinas e mais forte ainda nas avenidas. Sentiu-se bem outra vez. Caminhou por mais umas horas e voltou para casa. Após um bom banho quente copiou a maioria dos mortais, tambem ele acendeu a lareira e foi-se sentar no parapeito da janela. A sua mente recuou uns anos. Queria falar, desperava pelo toque de um outro ser humano e pela sua compreensão. Anos antes esteve envolvido em com um alguem muito semelhante a ele. Por certo nesse dia de chuva a pessoa em questão tambem andaria as voltas na chuva e tambem teria parado num outro café. Os nomes pouco importam por agora. No seu diario estava marcado o dia em que tudo tinha começado e muito mais recentemente o dia em que tudo acabou. Tinham sido um casal bonito. Tinham-se completado num equilibrio em tudo salutar. Sentia-se exausto após o passeio e depressa adormeceu no sofá. Na sua mente os sonhos eram de ouro. Ele e ela num cenário totalmente real. Numa visita ao passado. Eles e os amigos deles. Numa grande história. A chuva caia la fora. E caiu pelo dia todo. A água tudo lava e tudo leva. E levou-lhe os sonhos maus nesse dia de outono. Por mais dias ele levantou-se e saiu para a chuva.
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Fantastico!
ResponderEliminarLongo mas muito bonito!
"A água tudo lava e tudo leva. E levou-lhe os sonhos maus nesse dia de outono. Por mais dias ele levantou-se e saiu para a chuva."
Vale a pena sair para a chuva em dias assim... se vale!