quinta-feira, 25 de junho de 2009

" enquanto o tempo passa..."

Não vou dizer o ano. Não vou contextualizar. Digo que o Casablanca está nos cinemas. E o mundo prepara-se para a guerra. Num pequeno café em tons vermelhos duas pessoas resistem à passagem das horas. Alheios aos restantes problemas do mundo. As cadeiras em redor já estão arrumadas. Os empregados já desesperam para fechar a casa. Ao fundo numa grafonola toca o mais recente sucesso de Sinatra. Apenas vem dar mais ambiente a esta sala tão aconchegante. Na rua não se vê viva alma. Sentados de frente um para o outro fala como se não se vissem há séculos. Uma chavena de cappuccino fumega em cima da mesa.Ela veste um vestido branco de alças em linho com um xaile sobre os ombros. Poucas joias usa. Na verdade apenas uns discretos brincos de pérola e um relogio onde não marca horas. Ele veste um fato escuro riscado com chapéu a condizer. Camisa branca que outrora esteve apertada até cima. A gravata nesta hora pende larga. De mangas arregaçadas ele escuta-a. Debatem os grandes autores de literatura predilecta e de musica classica. Falam de Shakespeare e de Chopin. Debatem com fervor. Totalmente absorvidos das horas e do resto do mundo. Concordam discordando. Os olhos brilham cada vez que um deles se lembra de mais um soneto ou de mais uma opera. O empregado de balcão esfrega nervosamente o mesmo tentando insinuar que quer sair. Os restantes estão sentados em frente já descomposto fumando e conversando, contando o valor da gorjeta. De clientes só restam mesmo eles. Já é tarde. Falariam até à eternidade. Enquanto a conversa está quente o cappucinno pode esperar. É como ler um milhar de livros de uma vez só e como ter milhares de conversas. Citam as mais interessantes passagens dos escritores de renome. Na rua já não há ninguem. E apenas a luz da vitrine do café quebra a escuridão agora só com luz ambiente. E eles falam. Nada os faz demover. Um empregado menos paciente interrompe discretamente e pede para que paguem a conta e saiam. De inicio não lhe emprestam importancia. E reticentes acabam por pagar e ajeitam-se para sair. E como dizia a musica que tocava... não importa o que o futuro traga enquanto o tempo passa. Continuaram a conversa pela noite fora e pela rua acima. Ela no seu vestido branco e brincos de pérola e ele agora mais composto e com o seu chapéu.

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