quinta-feira, 14 de maio de 2009

"New york... new york..."

É noite de gala. Toda a gente traz o melhor fato. Eu cumpro também. A loucura dos anos trinta hoje nao me afecta. Enquanto me dirijo pelas ruas largas para o recital no meu carro escuro o vazio está em mim. Visto o meu melhor fato, e tento por a minha melhor cara. O meu rosto hoje está fechado. O céu está escuro e chuvoso. Nuvens negras pairam sobre a cidade.Os novos arranha céus que constroem e dizem que vão ser o futuro abundam por todo o lado. Um sucessão de taxis amarelos dirige-se na direcção da sala de espetáculos. Eu fico parado no transito. Chove como se o amanhã nunca mais chegasse. Uma sensação de vazio percorre-me. Estive contigo há umas horas mas sinto saudades tuas como se já não te visse há séculos. O mundo parece conspirar em segredo. No rádio vai tocando uma melodia classica em honra de um grande amor proibido. Dou por mim a imaginar aquele momento em concreto em que nos beijamos demoradamente na rua. Senti-te entrar em mim. Senti o teu abraço... decorei o teu cheiro. Abracei-te forte. Puxei-te para o meu peito. O meu coração dizia o teu nome. O meu cérebro parou naquela hora. Tudo são recordações emocionais. A razão ficou de parte naquele momento. Vou agitando os dedos nervosamente no volante. Nao sei se vou entrar. Ainda não vai ser hoje que te ouço tocar. Vesti o meu melhor fato e andarei as voltas pela cidade. Num destino sem rumo. Sentiras a minha falta? Procuraras a minha presença entre os espectadores? Ou fecharas os olhos e os nosso pensamentos ligar-se-ão ao ponto de ouvirmos a mesma musica? Vou um bar que vende chá. A lei seca mantém as bebidas fora do mercado. Mas peço mesmo um chá. Fico a olhar a janela e a chuva cai lá fora enquanto a chávena arrefece. Vejo que o meu pensamento é muito virado para dentro. Fecho os olhos e vejo-te. O empregado do bar pergunta o que tenho. Sinto-me vazio hoje respondo. Saudosamente vazio. Por esta hora a mulher que eu adoro está a encantar centenas com uma melodias de Bach. A plateia acumula-se nervosamente perto da entrada. Rumam aos seus lugares. Depressa a sala fica preenchida. Toda a gente vestida de gala. Eu também por sinal . Aqui neste recanto escondido da sociedade eu sou olhado de relance. Sem me sentir incomodado abandono este espaço. Torno ao meu carro e conduzo por horas. Quando à noite chego em casa tu já estás a dormir. Sento-me na poltrona sem te incomodar e fico a ver-te dormitar. Só saberei como correu quando ler amanha as criticas nos jornais. Se nada mais no mundo acontecer eu fico aqui a olhar-te. Adoro-te... ó céus como te adoro. És unica. Ficas no teu leito perdida em sonhos. Faz amanha quatro anos que saimos pela primeira vez. Espero que daqui a oitenta e muitos anos ainda aqui estejamos. Não digo neste espaço. Os dois bem envelhecidos. Sentados em um banco de jardim central a ter conversas em silêncio. Quero que mantenhamos a frescura deste nosso amor, como um novo amor todos os dias, e ao mesmo tempo apreciar a ternura de um amor antigo.Ficarei sentado contigo nesse banco de jardim até ao fim dos dias... Até à Eternidade.

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