quinta-feira, 22 de abril de 2010

"... lua de prata..."

A lua entrou-lhe pela janela, deixando o chão da sala iluminado de cor prata. Por uma janela muito estreita, via-se apenas o reflexo calmo e pálido da lua. Esta sala ainda que carregada de inúmeras recordações quentes, hoje estava despojada e vazia de qualquer emoção. Umas cortinas rendilhadas por mãos firmes e de algum talento, brilhavam ao luar.Vedando ilusoriamente o acesso a uma pequena varanda em pedra. Com grades verdes trabalhadas à mão num qualquer momento de à dois séculos atrás.O soalho encontrava-se desgastado pelo tempo, pela certeza do milhar de passos que já de certo o percorreu. Junto à janela do lado esquerdo encontrava-se um pesado móvel castanho de um igualmente pesado mas nada aborrecido estilo barroco, com retratos de vidas e momentos passados. Do lado direito da apertada sala estava um banco de dois lugares. Um banco antigo, forrado a palha de estilo francês. Ao centro da sala uma mesa igualmente forrada a palha com um tampo em vidro. Uma desinteressante jarra branca situava-se no centro da mesa, carregada com flores. Flores encarnadas. De um vermelho vivo. Cheias de jovialidade, eram a unica fonte de frescura numa sala estagnada no tempo. De frente para a janela ficava a porta da sala e a dois passos da porta junto ao canto estava uma cadeira antiga de baloiço. No chão por debaixo da mesa, centrada no meio da exigua sala, repousava um pesado tapete de imitação persa esverdeado e com rasgos de cor vermelha. Nas paredes tinha quatro quadros. Uma alusão às quatros estações, retratadas por quatro mulheres diferentes. O calmo brilho da lua entrava inevitavelmente pela janela. O vidro da mesa reflectia directamente para o tecto o brilho do luar, uma pequena caixinha castanha estava aberta. De aspecto igualmente gasto pelo tempo o seu outrora resplandescente tampo envernizado com uma rosácea embutida. Uma pequena bailarina dança em circulos ao som de uma melodia monofónica.É uma caixinha de música. O seu som brilhante espalha-se pela sala. É possivel denotar o passar do tempo até pela afinação da caixinha de música. A bailarina movimenta-se em uma sucessão de arabescos infinita ao som da melodia. É uma noite de Verão. A lua entra sem pedir licença pela janela da sala. No movel junto à janela, por entre várias molduras, uma armação metalizada ressalta a atenção e um casal de idade avançada está imortalizado numa fotografia. Ele era alto, magro de cara, cabelo branco, olhos grandes e pestanas ternurentas. Vestia uma camisa branca de manga curta e umas calças beges de tecido, com um cinto castanho. Numa qualquer rua historica de uma qualquer cidade com um jardim por perto, provavelmente numa viagem, alguem lhes tirou aquela foto. Parecia ser um final de tarde. A imagem em volta respirava um saudável tom cor de laranja. Ela estava sentada no colo dele, com o braço pousado atrás do pescoço dele e percorria-lhe toda a superficie dos ombros. A sua cabeça tombava em direcçao à dele. Ela usava uma saia de nesgas de um azul vulgarmente chamado de marinho com uma camisa branca como a dele. Sentada no colo dele a pele dela é clarinha,de cabelo claro, de olhos esverdeados com um sorriso lindo rasgado.Baixa de altura, cabia na perfeição no peito dele. Conseguia sempre sentir-se confortável num abraço. Os seus sorrisos eram realmente felizes. Expiravam um ar verdadeiramente feliz, conseguido por uma vida em conjunto. Eram amantes, amigos, confidentes, parceiros. Na cadeira junto à porta ela ainda é baixa de altura, a sua pele ainda é clara o seu sorriso ainda consegue ser rasgado, os seus olhos esverdeados não escondem o passar de uma vida. E ainda caberia perfeitamente em um abraço dele. Descansa na cadeira de baloiço. Recorda emocionada os tempos passados com ele, a vida em comum na frescura das flores do centro da mesa, a melodia da caixinha de musica que várias vezes dançaram naquela mesma sala. Recorda emocionada cada uma das fotografias, cada momento, cada emoção. Baloiça pacificamente na sua cadeira favorita. Com os olhos semi-cerrados observa o brilho do luar atravessar a sala e vir para a seus pés. Costuma por vezes adormecer naquela mesma cadeira. Ao som daquela mesma melodia, lembrando-se como havia sido um dia. Como tinham sido felizes. Muito subtilmente esboça um sorriso de contentantamento e satisfação. Sorriu e viu que os sorrisos foram realmente felizes. Expiravam um ar verdadeiramente feliz, conseguido por uma vida em conjunto. Foram amantes, amigos, confidentes, parceiros. A lua entrou-lhe pela janela, deixando o chao da sala iluminado como prata mais uma vez.

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